EDITORIAL: Os “batedores de cabeças” do Turismo

(Ou: quando falta planejamento e profissionalismo) (Ou ainda: Pindamonhangaba é MIT de fato ou apenas de título?)

Por vezes, a atuação de autoridades do Executivo e do Legislativo de Pindamonhangaba lembra um parque de diversões — mais especificamente os carrinhos de bate-bate.

O problema é que a gestão pública não comporta improviso, choque de egos ou movimentos sem direção. Quando se trata de qualidade de vida e representação da população, decisões exigem planejamento, método e responsabilidade institucional.

Após exatos dez anos, o município obtém a classificação como MIT — Município de Interesse Turístico — ainda que tenha desperdiçado tempo considerável para atender às exigências técnicas. O reconhecimento veio, em grande parte, no contexto de uma reorganização estadual que permitiu o avanço de processos até então represados. Contudo, o título, por si só, não representa desenvolvimento automático.

Para os 70 municípios recentemente classificados, não há recursos suficientes para que recebam repasses do DADETUR, haja vista as vagas “remuneradas pelos repasses” estarem todas ocupadas.

O acesso ao grid alvo dos repasses depende de projetos aprovados, bem instruídos tecnicamente, com orçamentos consistentes e aderência ao Plano Diretor de Turismo. Isso impõe responsabilidade redobrada: planejamento coletivo, visão estratégica e definição de ações de curtíssimo prazo, viáveis e efetivamente úteis ao turismo receptivo local.

Diante disso, surge uma questão essencial: se a intenção sempre foi consolidar Pindamonhangaba como município turístico, por que não se estruturou, com antecedência, um núcleo permanente de projetos prontos para captação de recursos?

O ambiente de negócios também influencia diretamente a atratividade turística. Medidas que elevam de forma significativa a carga tributária municipal — como IPTU, Taxa do Lixo e valores venais — repercutem nos custos do comércio e dos serviços. O resultado é um cenário menos convidativo a investimentos, o que compromete o ciclo econômico que sustenta o turismo.

Causa estranheza, igualmente, a ausência de participação efetiva de autoridades nas audiências públicas relativas à Estrada de Ferro Campos do Jordão. Esses fóruns representavam oportunidade estratégica para apresentar propostas técnicas à Secretaria de Parcerias em Investimentos. Turismo exige articulação institucional; oportunidades perdidas dificilmente retornam no mesmo formato.

O envolvimento do empresariado é outro ponto decisivo. O turismo receptivo demanda qualificação contínua, mudança de postura e profissionalização no atendimento e na hospitalidade. Ainda se percebe, entretanto, um engajamento aquém do necessário. Entidades representativas do comércio local precisam assumir papel mais ativo na construção de uma agenda turística estruturada, e não apenas na validação de iniciativas pontuais.

É importante reiterar: evento não é política de turismo. Eventos são ferramentas de apoio, não substitutos de planejamento turístico. Sem estratégia, tornam-se ações isoladas, de impacto limitado e curta duração.

O COMTUR — Conselho Municipal de Turismo — também carece de maior visibilidade, protagonismo técnico e comunicação com a sociedade. Conselhos existem para formular diretrizes e acompanhar políticas públicas, não apenas para referendar decisões já tomadas.

Aspectos operacionais reforçam o quadro: a localização do Posto de Informações Turísticas em área pouco intuitiva ao visitante e a ausência de uma política contínua de comunicação institucional voltada ao turismo demonstram falta de visão sistêmica. Mídias sociais ajudam, mas não substituem estratégia integrada de promoção do destino nem o engajamento da própria comunidade na valorização local.

Se a condução permanecer baseada em movimentos dispersos, sem coordenação e profissionalismo, Pindamonhangaba corre o risco de ver o turismo passar — como um trem que segue adiante enquanto a estação permanece imóvel.

O desenvolvimento turístico exige três pilares claros: profissionalismo, comprometimento e criatividade da iniciativa privada.
À gestão pública cabe, por atribuição institucional, oferecer infraestrutura, planejamento e ambiente favorável.

Sem isso, títulos tornam-se simbólicos.
Com isso, transformam-se em desenvolvimento real.

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Marcos Ivan de Carvalho
Jornalista independente especializado em Turismo — MTb 91.207/SP
Gestor de Turismo (IFRJ/MTur/MEC); Membro do Conselho Deliberativo da AMITur (Associação Brasileira dos Municípios de Interesse Cultural e Turístico).

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